
Na sala de espera, diz-se « o doutor vai atendê-lo ». Na receita, aparece « médico generalista ». Esses dois termos coexistem no cotidiano médico, mas não designam a mesma coisa. Um remete a um grau universitário, o outro a uma profissão regulamentada. Confundir os dois pode causar problemas reais, inclusive jurídicos.
Título de doutor e profissão de médico: dois status distintos na legislação francesa
Quando um paciente chama seu praticante de « doutor », ele pensa na pessoa que o cuida. No direito, o termo « doutor » designa, no entanto, toda pessoa titular de um diploma de doutorado, independentemente da área. Um doutor em história, em física ou em direito possui esse título da mesma forma que um doutor em medicina.
A lei n° 2020-1674 esclareceu esse ponto ao modificar o artigo L412-1 do Código de Pesquisa. Desde essa modificação, os titulares do diploma nacional de doutorado podem usar o título de doutor « em qualquer emprego e em qualquer circunstância ». Um pesquisador em biologia molecular pode, portanto, legitimamente inscrever « Dr » em seu cartão de visita, sem exercer a medicina.
O termo « médico », por sua vez, é estritamente reservado. Ele designa um profissional de saúde diplomado em medicina, registrado na tabela da Ordem dos Médicos. Sem esse registro, é impossível exercer legalmente, mesmo com o diploma em mãos. Compreende-se melhor, ao aprofundar esse assunto, qual é a diferença entre um médico e um doutor e por que a confusão persiste na linguagem cotidiana.

Usurpação do título de médico: o que prevê o código penal
Nem sempre se medem as consequências jurídicas de uma confusão entre esses dois termos. Apresentar-se como médico sem ter o direito constitui uma infração penal. O Código de Saúde Pública regula estritamente o exercício ilegal da medicina, e o Código Penal pune a usurpação de título.
Concretamente, um osteopata, um naturopata ou um coach de saúde que utilizasse o título de « doutor » em um contexto que sugira uma qualificação médica se expõe a processos. A usurpação do título de doutor em medicina é especificamente protegida pela lei, assim como a de doutor em cirurgia dentária.
Para os profissionais de saúde não médicos (fisioterapeutas, enfermeiros, farmacêuticos), a regra é clara: eles não utilizam o título de doutor em sua prática, mesmo que alguns possuam um doutorado universitário. As respostas variam sobre esse ponto entre os países francófonos, com o Quebec, por exemplo, tendo regras diferentes que autorizam o título para quiropraxistas ou optometristas membros de sua ordem profissional.
Caminho de estudos em medicina: por que todo médico é doutor
O curso de medicina francês se estende por um longo período, entre os mais exigentes do ensino superior. O diploma obtido ao final desse percurso é um diploma de Estado de doutor em medicina, o que explica que todo médico é automaticamente doutor.
O inverso não é verdadeiro. Um doutor em ciências políticas não possui nenhuma competência médica reconhecida. A confusão vem do fato de que a linguagem cotidiana reduziu « doutor » a « médico », enquanto o termo acadêmico abrange todos os campos disciplinares.
O que contém o diploma de Estado de doutor em medicina
Para exercer, o futuro médico deve validar várias etapas que vão muito além da defesa de tese:
- Um primeiro ciclo de formação teórica e científica fundamental, comum a todas as especialidades médicas
- Um segundo ciclo de externato com estágios hospitalares, em contato direto com os pacientes e as equipes de saúde
- Um terceiro ciclo de internato na especialidade escolhida, que dura vários anos dependendo da disciplina (medicina geral, cirurgia, psiquiatria, etc.)
- A defesa de uma tese de exercício, que confere oficialmente o grau de doutor em medicina
Sem a tese defendida, não há título de doutor. Um interno no final do curso que ainda não tenha defendido exerce sob supervisão, mas não pode se apresentar como doutor.
Menções na receita e na placa profissional: o que diz a deontologia
No consultório, a distinção entre médico e doutor assume uma forma muito concreta nos documentos oficiais. A receita deve mencionar o nome do praticante, sua qualidade de médico e sua especialidade. O título « Dr » aparece como abreviação, mas é a menção « médico » que atesta o direito de exercer e prescrever.
Na placa profissional, as regras de publicidade são regulamentadas pelo Código de Deontologia Médica. Um médico pode indicar seu nome, sua especialidade e seus diplomas reconhecidos. Ele não pode adicionar menções comerciais ou títulos não validados pela Ordem.
Por que essa rigidez nas menções
O quadro deontológico protege o paciente. Ao ler uma placa ou uma receita, qualquer pessoa deve ser capaz de identificar sem ambiguidade que está lidando com um profissional autorizado a exercer a medicina. Um doutor em farmácia que adicionasse « Dr » em uma placa sem especificar « farmacêutico » criaria uma confusão passível de sanção.
As menções autorizadas seguem regras precisas:
- A abreviação « Dr » precede o nome nos documentos profissionais do médico
- A especialidade deve corresponder à qualificação ordinal registrada
- Os diplomas complementares (capacidades, diplomas universitários) podem ser mencionados se forem reconhecidos pela Ordem

Na próxima vez que lhe pedirem para distinguir esses dois termos, lembre-se desta regra simples: todo médico é doutor, mas nem todo doutor é médico. A primeira palavra designa uma profissão regulamentada pela lei e pela Ordem, a segunda um grau universitário acessível em todas as disciplinas. Uma distinção que parece sutil no papel, mas que envolve responsabilidades muito diferentes na prática.